Morocha Virtual: alguns aspectos da violência de gênero na Internet

por Emerson Wendt - 07/10/2015

RESUMO

O presente artigo tem como escopo refletir, a partir de uma ótica diversa da tradicional, acerca da violência de gênero na Internet, utilizando como metáfora a música regional gaúcha “Morocha”. Assim, desde um contexto hodierno da interação social através de mídias sociais, introduz as principais formas de violência de gênero na Internet, propiciando a discussão e análise específica dos temas em artigos subsequentes. O método é analítico e baseado em dados de pesquisas divulgadas e notícias na Internet.

Palavras-chave: Internet; Mídias Sociais; Violência de Gênero.

 

A Internet propiciou, nos últimos 20 anos, uma mudança radical na comunicação no mundo, influenciando comportamentos pessoais e sociais, com o incremento da cultura crítica instantânea e a potencial mudança político-social através das manifestações via web[i].

Não foi diferente quanto aos aspectos considerados ruins da vida cotidiana, como crimes, danos, ofensas, xingamentos, discursos do ódio etc., os quais se espalham através da Internet como um rastilho de pólvora, se não mais rápido!

Do ponto de vista do gênero, a mulher acaba se tornando a maior vítima – ou a mais exponencial – de situações que lhe causem dano, sofrimento e angustias. Divulgação de pesquisa feita pelo Instituto Avon em 2014[ii] demonstra que o controle tecnológico pelo companheiro, marido ou namorado, principalmente via aplicativos móveis, é um dos principais aspectos denotados nos relacionamentos atuais, no qual a atuação masculina é “uma afirmação da sua masculinidade, uma prova da sua virilidade”.

Violência e Controle nos Relacionamentos

Figura 1 – Fonte Pesquisa Instituto Avon (2014)

Verificou-se, também na pesquisa citada, que pelo menos um a cada 4 homens já repassou conteúdo (imagens e vídeos) de mulheres nuas sem seu consentimento[iii] e atos como ameaçar publicar fotos ou filmes da parceira nua na Internet são os mais comuns dos parceiros:

Controle na Internet - Instituto Avon 2014

Figura 2 – Fonte Pesquisa Instituto Avon (2014)

Assim, a violência de gênero não é restrita ao mundo físico, que muitos chamam de mundo real. Pelo contrário, as redes sociais e os comunicadores instantâneos propiciaram uma plena ampliação das práticas de abusos masculinos, em especial a pornografia de vingança (revenge porn) e o cyberbullying[iv].

O caso Rose Leonel é tido como um dos primeiros (ocorreu em 2006) em que, com repercussão em mídias diversas, demonstrou os reais efeitos desse tipo de “violência” contra a mulher na era da Internet. No caso em tela, o homem a anunciava como garota de programa e colocava os telefones pessoais dela para contato, fazendo com que a vítima recebesse mais de 500 ligações por dia de homens interessados nas divulgações. O autor foi condenado por injúria e difamação[v], além de ter de pagar uma indenização[vi]. Porém, os efeitos foram diversos, tais como depressão, isolamento e, ainda, perda do emprego[vii].

Assim, esses atos podem ser denominados metaforicamente de “morocha virtual”, numa alusão à música (gaúcha) “Morocha”, lançada no festival de Cruz Alta Coxilha Nativista (1984)[viii]. Ainda cantada em rodas gaúchas, traz consigo um linguajar que pode ser considerado de submissão e desrespeito ao feminino, este como objeto[ix], embora também possa ser analisado pelo seu aspecto crítico em relação a esse tipo de conduta:

Não vem morocha, te floreando toda

Que eu não sou manso e esparramo as garras

Nasci no inferno, me criei no mato

E só carrapato, é que em mim se agarra

 

Tu te aprochegas, reboleando os quarto

Trocando orelha, meu instinto rincha

E eu já me paro, todo embodocado

Que nem matungo, quando aperta a cincha

 

(Aprendi a domar amanunciando égua

E para as mulher vale as mesmas regras

Animal, te para sou lá do rincão Bis

Mulher pra mim é como redomão

Maneador nas patas e pelego na cara)

 

Crinuda velha, não escolha o lado

Nos meus arreios não há quem peliche

Tu inchas o lombo, te encaroço a laço

Boto os cachorros e por mim que abiche

 

Não te boleias que o cabresto é forte

O palanque é grosso senta e te arrepende

Sou carinhoso, mas incompreendido

E pra o teu bem, vê se tu me entendes

Nenhum estudo científico sobre gênero referiu a música (gaúcha) “Morocha” e fez sua análise sobre sua conotação machista. No entanto, o termo “Morocha”, também usado na literatura de João Simões Lopes Neto (Contos Gauchescos), é analisado sob o aspecto do erotismo e, ainda, seu significado regional gaúcho, ou seja, “1 Rapariga morena. 2 Mestiça, mulata”.[x]

O sentido proposto para “morocha virtual”, neste texto e nos próximos sobre a violência de genero na Internet, é o do contexto da exploração e violação da imagem e da intimidade da mulher, seja através da invasão e controle remoto de dispositivos informáticos, seja pela divulgação de imagens assim obtidas, seja pela publicação e transmissão de imagens e vídeos íntimos, seja pela perseguição virtual (ciberstalking) e, ainda, seja pela prática genérica do ciberbullying.

 

REFERÊNCIAS

BERTUSSI, Lisana. A literatura oral como etnotexto do erotismo campeiro. Métis: história & cultura, v. 9, n. 18, 2012.

BUZZI, Vitória de Macedo. Pornografia de vingança: contexto histórico-social e abordagem no direito brasileiro. Florianópolis: Empório do Direito, 2015.

INSTITUTO AVON. Violência contra a mulher: o jovem está ligado? Pesquisa Instituto Avon / Data Popular. 2014.

SIQUEIRA, Sabrina. Aspectos de violência em Contos Gauchescos e Dublinenses. Literatura, Comparatismo e Crítica Social. Fev 2015. 182-190.

WENDT, Emerson; JORGE, Higor Vinicius Nogueira. Crimes Cibernéticos: ameaças e procedimentos de investigação. 2ª ed. Rio de Janeiro: Brasport, 2013.

WENDT, Emerson. Violência de Gênero na Internet. Disponível em: <https://www.academia.edu/15354028/Viol%C3%AAncia_de_G%C3%AAnero_da_Internet>. Acesso em: 06 set. 2015.


 

[i] Segundo estudo apresentado no youPIX SP Festival em 2014, do CONECTA, o jovem internauta brasileiro possui, em média, perfil em 7 redes sociais. As mais populares são: Facebook (96% possuem perfil), YouTube (79%), Skype (69%), Google+ (67%) e Twitter (64%). Navegar nessas redes sociais é um hábito de 90% dos internautas de todo o país com idade entre 15 e 32 anos. Outras atividades comuns na web também foram destacadas: buscar informações (86%), acompanhar notícias (74%), assistir a vídeos (71%), ouvir música (64%) e trocar e-mails. Dados da pesquisa em https://pt.slideshare.net/conectaibrasil1/youpix-2014-final2 e http://conecta-i.com/?q=pt-br/node/530 (último acesso em 6 set. 2015).

[ii] Pesquisa completa está disponível em http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/dossie/pesquisas/violencia-contra-a-mulher-o-jovem-esta-ligado/ (último acesso em 6 set. 2015).

[iii] Dados em http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/dossie/pesquisas/violencia-contra-a-mulher-o-jovem-esta-ligado/#um-em-cada-4-homens-ja-repassou-imagens-de-mulheres-nuas-sem-consentimento-delas (último acesso em 6 set. 2015).

[iv] Leia sobre os principais atos de violência de gênero na Internet em http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/dossie/violencias/violencia-de-genero-na-internet/ (último acesso em 6 set. 2015).

[v] Fonte: http://noticias.r7.com/cidades/fotos/sete-anos-depois-jornalista-que-foi-exposta-por-ex-como-prostituta-na-web-ainda-tenta-se-recuperar-25102013#!/foto/1 (último acesso em 6 set. 2015).

[vi] Condenação ocorreu em 2011: http://www.tribunadecianorte.com.br/cidades/2011/08/tj-condena-empresario-no-caso-rose-leonel/878868/ (último acesso em 6 set. 2015).

[vii] Fonte: http://redeglobo.globo.com/rpctv/noticia/2014/09/encontro-rose-leonel-fala-sobre-luta-contra-difamacao-na-internet.html (último acesso em 6 set. 2015).

[viii] A música foi composta por Mauro Ferreira e Roberto S. Ferreira e quem a interpretou no festival da Coxilha em Cruz Alta foi o cantor David Menezes Júnior, acompanhado de Os Incompreendidos. A música foi premiada com a segunda posição na categoria “canção”, abocanhando outros 5 troféus: o “Lenda da Panelinha” (mais popular); o “Romano Zanchi” (júri especial da imprensa da cidade); Música Mais Popular; o troféu “Capitão Rodrigo”, para o Melhor Intérprete, David Menezes Júnior, e; ainda, o “Troféu Grazzito”, para a Melhor Indumentária, para Os Incompreendidos.

[ix] Luciano Potter, jornalista e humorista do programa diário Pretinho Básico da Rádio Atlântida, fez uma análise do contexto da música: http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2015/02/luciano-potter-a-vergonhosa-historia-do-ex-machista-4705585.html (último acesso em 6 set. 2015).

[x] Fonte: http://www.dicio.com.br/morocha/ (último acesso em 6 set. 2015).


 

* Emerson Wendt é Delegado de Polícia Civil do RS. Formado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Santa Maria e Pós-graduado em Direito pela URI-Frederico Westphalen. Mestrando em Direito pelo UnilaSalle Canoas-RS. Diretor do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico e Membro do Conselho Superior de Polícia da Polícia Civil do RS e Professor da Academia de Polícia Civil nas cadeiras de Inteligência Policial e Investigação Criminal. Ex-Diretor do Gabinete de Inteligência e Assuntos Estratégicos. Também, é professor dos cursos de pós-graduação e/ou extensão da UNISINOS (São Leopoldo-RS), SENAC-RS (Passo Fundo-RS), IDC (Porto Alegre-RS), Verbo Jurídico (Porto Alegre-RS), Uniritter (Porto Alegre-RS e Canoas-RS), EPD (São Paulo-SP), IMED (Passo Fundo-RS), UNITOLEDO (Porto Alegre-RS), ESMAFE/RS (Porto Alegre), Uninorte (Rio Branco-AC), Unifacs (Salvador-BA). Membro da Associação Internacional de Investigação de Crimes de Alta Tecnologia (HTCIA), do PoaSec e do INASIS, além de ex-integrante do Comitê Gestor de Tecnologia da Informação da Secretaria de Segurança Pública do RS. Já ministrou aula nas Academias das Polícia Civis de Pernambuco, Goiás, Paraná, Acre, Alagoas, Sergipe, Rondônia e Piauí. Também, é Tutor dos cursos EAD e presenciais da Secretaria Nacional de Segurança Pública, especialmente na atividade de Inteligência de Segurança Pública. Autor do livro Inteligência Cibernética (Editora Delfos) e coautor dos livros “Crimes Cibernéticos: ameaças e procedimentos de investigação”, com Higor Vinícius Nogueira Jorge, e “Inteligência Digital”, com Alesandro Gonçalves Barreto. Autor e organizador dos livros “Investigação Criminal: ensaios sobre a arte de investigar crimes” e “Investigação Criminal: Provas”, juntamente com o Fábio Motta Lopes. E-mail: emersonwendt@gmail.com.

 

 

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