Trabalho remoto e cultura organizacional: como manter o equilíbrio?

por Claudio Carrara - 09/07/2021

A maior transformação cultural da história no mundo corporativo está em curso. Organizações estão se desfazendo de imóveis, reduzindo os espaços físicos e incentivando um sistema híbrido de trabalho. Isso tem permitido às empresas, em parte, cortar despesas com aluguéis e manutenção de escritórios, já que a tendência é que o modelo se mantenha após o período de isolamento social.

Em uma pesquisa divulgada recentemente pelo Gartner, que ouviu mais de 10 mil profissionais de organizações acima de 100 funcionários, 69% das pessoas consultadas disseram optar por uma função que lhes permita trabalhar em um local de sua escolha, e 64% consideram trabalhar em horários flexíveis. Essa flexibilidade na jornada de trabalho foi o fator mais citado para a maior produtividade para 43% dos entrevistados.

Vemos a tecnologia, que por muitas vezes foi considerada a vilã das relações presenciais, agora como fundamental aliada para manter a conexão entre os pares, equipes e líderes, e responsável por melhorar a eficiência e produtividade. Sistemas, processos e conteúdos podem ser facilmente copiados e melhorados com acesso às tecnologias mais modernas que estão à distância de um clique. Mas ainda há algo que a tecnologia não pode suprir para as organizações, que é o fator humano.

É por isso que o formato escancara preocupações que talvez ficassem menos evidentes às empresas: o capital humano merece mais investimento, com foco em treinamento, equipamentos para a estruturação do home office, e muita atenção à saúde física e metal; e a dedicação das corporações à manutenção e reprodução da cultura organizacional precisa ser repensada para não ser diluída pela conexão restrita às videoconferências e mensagens de WhatsApp.

E como resolver esses pontos? Não há um método comprovado que funcione. Alguns “testes” estão sendo feitos em tempo real por quem passa por essa situação: nós, líderes, e nossos times. Manter as pessoas que trabalham remotamente conectadas à cultura, aos valores e à estratégia da empresa, sem deixar que elas percam o espírito de constante crescimento profissional e a ambição de contribuir para a organização é uma tarefa complexa.

A cultura, mesmo para as empresas inovadoras, não é um bem físico e replicável facilmente. E é justamente a cultura uma das responsáveis por manter o espírito de inovação dentro de uma empresa. Talvez seja mais simples mantê-la em organizações em que o crescimento – tanto em cifras quanto em pessoas – não oscila em grande escala durante os anos. Mas numa corporação que cresce 10, 20, 50% ao ano, a dúvida que fica é como engajar novos colaboradores nessa rotina de isolamento.

A comunicação entre os líderes e seus times e pares ganhou uma relevância maior, mas ficou mais complexa: nada de trocas de ideia no café no meio da tarde, em meio aos pufs coloridos, ou papos descontraídos em festas e momentos de confraternização, momentos quando grandes ideias surgem e o relacionamento entre as pessoas se estreita. Esses encontros “desestruturados”, que são parte importantes para o processo de assimilação de valores e cultura, caíram no desuso com o isolamento social. Mas a necessidade de equilibrar prioridades de negócios e estar presente para as equipes lideradas está em alta.

O mercado de trabalho que hoje é dominado pelos Millennials, uma geração extremamente voltada ao empreendedorismo e que busca, acima de tudo, um propósito na relação com trabalho-empresa, evidencia que as relações humanas entre a organização e seus colaboradores/fornecedores/comunidade é um ponto determinante para estruturar a jornada profissional do indivíduo na corporação. Pesquisa do MindMiners realizada em 2017, mostra que os aspectos mais importantes para a geração Y são o incentivo à geração de novas ideias, a comunicação aberta e transparente, e o compromisso com a igualdade e inclusão. Isso mostra que a retenção desses talentos acontece muito mais de acordo com a consistência da proposta da empresa alinhados aos ideais dessa faixa etária, do que altos salários, PLRs e outros benefícios.

Essa é uma das razões pelas quais os líderes – principalmente no cenário virtual – para incrementar aos negócios resultados sustentáveis, devem colocar nas agendas a relação com as pessoas e manter contato frequente, já que nossos talentos são o principal pilar para o negócio. A presença deles, mesmo que online, na rotina das equipes é importantíssima. É o comportamento dessa liderança que indica a seriedade das ações preventivas e a importância e cuidado que a empresa dá para a saúde das pessoas. Líderes orientados ao caráter humano da relação entre empresa e colaborador são o trunfo para a manutenção de uma cultura e valores organizacionais perenes. Sem empatia a cultura organizacional não se mantém. São essas pequenas ações que criam nos colaboradores um senso de comunidade e pertencimento à sua empresa.


Claudio Carrara é VP e líder de gestão de pessoas da Meta

 

 

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